sexta-feira, 13 de maio de 2011

O mundo cinza

Quando vi a matéria na Folha falando sobre a luta da associação de moradores de Higienópolis contra a instalação do metrô, não hesitei em me alinhar à tal "gente diferenciada" que era supostamente alvo da repulsa de alguma parte da população do bairro. Ao longo daquele dia, anteontem, e dos dias seguintes, a coisa foi tomando uma proporção tal que me deixou assustada e confusa.

De todos os lados vinham vários argumentos pró e contra a posição daqueles moradores. De ambos os lados havia considerações perfeitamente racionais e outras perfeitamente nazistas. O mundo se mostrou mais uma vez muito mais cinza do que parecia.

De tudo isso, o que ficou claro para mim é que a aparente paz com que convivem as diferentes classes sociais é só isso mesmo: aparente. Eu já deveria ter desconfiado disso, afinal, a violência urbana e a resposta que tem sido dada a ela (carros blindados, portarias de prédio impenetráveis, condomínios "all inclusive") são sinais mais do que claros do ódio que uma classe nutre pela outra.

Certamente há muitos estudos por aí que tratam disso e eu não quero pretender estar descobrindo a pólvora. Coloco-me apenas na posição daquilo que gosto de chamar de "leiga esclarecida", ou seja, de alguém que não é especialista no assunto, mas que é supostamente (tô parecendo a Folha, com esse monte de supostamente) capaz de entender e de refletir sobre um tema, ainda que chegue a conclusões mais do que conhecidas.

Voltando ao "caso Higienópolis", contariam a favor daqueles que são contra a estação na Angélica o fato de que ela seria próxima demais de outras duas estações, que, de alguma forma, sua localização descaracterizaria o bairro e que, por fim, existem outras áreas na cidade muito mais necessitadas de uma estação de metrô.

Em relação aos que repudiaram a iniciativa da associação, pelo que me parece, pesam a certeza de que a reivindicação dos moradores teve como motivo fundamental a manutenção de uma certa "limpeza social", ou seja, dificultar a aproximação das mazelas que são acompanhadas pela facilitação do acesso e pela aglomeração de pessoas (camelôs, assaltos, degradação da área ao redor da estação). Vi também o argumento de que o governo não pode ceder aos interesses individuais (dos moradores do bairro, de andar tranquilamente em suas belas ruas e fazer compra no charmoso Pão de Açúcar) em detrimento do bem coletivo (transporte de massa, limpo e de fácil acesso).

Daí descambou para tudo o que é possível. Um defendeu que ser rico não é pecado (pergunta se ele é rico ou pobre) e muitos do lado de lá passaram a xingar a tudo e a todos, como os judeus que moram em Higienópolis. Baixaria geral. É só dar uma oportunidade que o pior da humanidade vem à tona.

Pois bem. O ponto que vou defender é outro. Numa cidade em que a região central é tão absolutamente degradada, me parece quase um alívio saber que existem alguns pontos em que os ricos insistam em ficar. Higienópolis é um deles, o Jardins é outro. É isso mesmo, é quase uma teimosia ficar. Boa parte dessas pessoas já podia ter se mudado para outros distritos em que essas questões demorariam mais a aparecer, como Moema, Itaim, Vila Olímpia etc.

Dessa forma, não me parece nada saudável para a cidade expulsar os ricos da área central. Por outro lado, também não é nada justo dificultar o acesso das pessoas, quaisquer que sejam, e especialmente as que dependem de transporte coletivo. De uma certa forma, é a mesma discussão que se trava sobre a revitalização da cracolândia (meu marido me disse hoje, com visível orgulho, que viu Cracolândia escrito com C maiúsculo na revista piauí).

Só um parêntesis. Aqui, na Cracolândia (agora para sempre com C maiúsculo, para alegrar o marido), a discussão que se trava é: para quem é a revitalização? Para quem mora e trabalha aqui ou para a formação de um novo bairro de classe média-alta, com o privilégio de uma infraestrutura pronta?

Assim, aqui, da minha cadeira na cozinha de casa, me parece que as pessoas estão lutando as lutas erradas. A suposta (olha o suposto aí novamente) elite deveria estar lutando para que o governo fosse capaz de prover uma estação de metrô que não gerasse degradação, enquanto os demais interessados deveriam exigir que a região central continuasse (e fosse cada vez mais) um lugar onde empregos são gerados, em que o capital circula e em que as pessoas têm prazer de estar.

Mais uma vez, fui panfletária e não falei dos aspectos pitorescos do bairro. Mas estou feliz com meu post. E, principalmente, achei interessante que as mágoas sociais tenham vindo à tona. Um mundo nem preto nem branco. Um mundo cinza, como a cidade de São Paulo.

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